No início do século, a Praça Tiradentes não era mais o Largo Rócio, mas ainda conservava o antigo bosque, de folhagens pouco tratadas, com ruazinhas de pedras escuras e mal varridas.

No centro, e bem no alto estava a estátua de Pedro I – na verdade, a única que a cidade possuía. Por pouco não foi derrubada por um grupo de enfurecidos patriotas que, logo aos primeiros dias da República, quiseram destruí-la aos gritos de: “— Abaixo o colonizador!”.

Margeando a praça, enfileiravam-se os tilburis, antecessores de nossos táxis, com seus cavalinhos sujos, magricelos, fustigados por cocheiros desgrenhados de paletó aos remendos e gravatas ensebadas. Eram veículos de almofadas quase sem couro, capotas sujas e esburacadas. Os fregueses eram escassos, embora as lojas permanecessem abertas, iluminadas e repletas de clientes até as 10 horas da noite.

Mal a torre de São Francisco batia, pausadamente, às sete horas, já se acendiam as gambiarras do Moulin Rouge e do Teatro São Pedro. A praça inteira se agitava com o povo em busca dos grandes “points” da época: era a charutaria do João de Figueira, ao lado do Moulin Rouge, a do Madruga, na esquina da Rua Sete de Setembro, o Restaurante Mangine e a Maison Desiré na esquina da Travessa Silva Jardim.

 
 

O grande “chic”, porém, era ir ao Café Criterium, no canto da Rua do Sacramento, onde hoje está Av. Passos. Por ali, em meio à agitação, ao vozerio, aos brados de saudação, apinhavam-se políticos, atores, poetas, jornalistas e toda a sorte de intelectuais iniciando um hábito que haveria de contagiar, primeiro a cidade, e depois o Brasil: a mania de, por esse ou aquele motivo, tomar um cafezinho. E era mesmo difícil resistir a duas ou três xícaras da bebida, diante do aroma macio e excitante que enchia o ar daquela esquina.

Pouco depois, o lugar passou a ser conhecido como Café Capital, sem perder, porém, a fama de possuir um “insuperável café”. E continuavam lá, indo gente famosa das artes e da política como Eugênio Magalhães, o Areias, o Peixoto e o aclamadíssimo Brandão, foram eles que sugeriram que a casa instalasse ali uma moagem, para que os amantes da nova mania pudessem preparar e tomar o seu café também em casa.

Logo o desejo dos amáveis fregueses foi realizado, iniciando-se, assim, outro hábito do carioca: levar, pendurado nos dedos da mão, o pacotinho de Café Capital com um cuidado que beirava a devoção. O costume cresceu tanto, que obrigou o Café Capital, em 1943, a tornar-se uma indústria, nascendo assim, a Torrefação Capital Ltda, que mais tarde se tornaria a Cia Capital de Produtos Alimentícios.
E hoje, quase cem anos depois, o Café Capital só quer agradecer o carinho e a fidelidade dessa imensidão de amigos conquistados por décadas e décadas, foi por eles, e com eles, que pôde chegar ao que se é hoje: o melhor e o mais tradicional café do Brasil.

E quando você passar ali, na esquina da Av. Passos com a Praça Tiradentes, encompride um olhar saudoso por aquele café que ainda guarda um pouco de sua antiga arquitetura. Tente ouvir as gargalhadas, os dichotes, o murmúrio de uma época que essa cidade jamais esquecerá.

Quanto ao cheirinho do café, que com certeza lembrará algum lugar do passado, não veja nisso nada de sobrenatural. E que a qualidade do Café capital, depois de todos esses anos, nunca deixou de ser a mesma. E para comemorar, entre, sente e tome um cafezinho.

 
 
   
Studio 2d+ Comunicação e Arte